Uma clínica não é um apartamento vazio. Tem doentes marcados, equipamento caro e sensível, e uma exigência de higiene que o pó de obra não perdoa. Remodelar sem fechar é possível — mas a obra tem de ser pensada à volta da agenda clínica, e não o contrário.
A resposta curta
Na maior parte dos casos, uma clínica pode continuar a atender durante a remodelação se a obra for dividida em zonas estanques, executadas uma de cada vez, com barreiras contra pó, circulação separada para a obra e os trabalhos ruidosos concentrados em janelas combinadas com a equipa.
O que raramente se evita são um a três dias de paragem total: para as ligações às redes gerais (água, eletricidade, ar comprimido, aspiração) e para a limpeza final antes de reabrir. Melhor planeá-los num feriado ou numa semana de férias do que descobri-los a meio da obra.
Remodelámos, por exemplo, o espaço da Clínica Médica Dentária da Conchada, em Coimbra. O que se segue é o método geral que aplicamos neste tipo de obra.
Planear com a equipa clínica
Antes de desenhar fases, sentamo-nos com quem trabalha na clínica: direção clínica, gestão e, sempre que possível, a pessoa responsável pela esterilização. As perguntas são práticas:
- Quais os gabinetes que não podem parar, e quais podem ficar fora de serviço duas ou três semanas?
- Onde fica a esterilização, e há alternativa temporária enquanto essa zona estiver em obra?
- Que dias e horas têm menos marcações? Há semanas de férias da equipa?
- Por onde entram os doentes, e por onde pode entrar a obra sem se cruzar com eles?
- Que equipamentos têm fornecedor ou técnico próprio que tem de estar presente para desligar, mover ou voltar a ligar?
Desta conversa sai um plano escrito, com um interlocutor de cada lado e uma reunião curta semanal. Numa clínica, uma mudança de agenda não comunicada custa mais do que qualquer imprevisto de obra.
Faseamento por zonas
O princípio é simples: a clínica divide-se em zonas que possam funcionar de forma independente, e a obra avança uma zona de cada vez. Para uma clínica pequena, com quatro gabinetes, receção e esterilização, um faseamento típico seria este:
| Fase | Zona | Trabalhos | Duração indicativa |
|---|---|---|---|
| 0 | Preparação | Levantamento, barreiras, percurso de obra, proteção de equipamentos, compartimento técnico provisório | 3–5 dias |
| 1 | Gabinetes 1 e 2 | Demolições, instalações, revestimentos, tetos; clínica a funcionar com gabinetes 3 e 4 | 3–4 semanas |
| 2 | Gabinetes 3 e 4 | Idem; atividade passa para os gabinetes já remodelados | 3–4 semanas |
| 3 | Esterilização e apoio | Bancadas, pontos de água e esgoto, ventilação; esterilização provisória noutro compartimento | 1–2 semanas |
| 4 | Receção e espera | Trabalhos ruidosos concentrados; acabamentos fora do horário de consulta | 1–2 semanas |
| 5 | Ligações e fecho | Ligações às redes gerais, ensaios, limpeza final; clínica fechada | 1–3 dias |
Exemplo ilustrativo para uma clínica pequena. Cada clínica tem a sua planta e a sua agenda; o faseamento real resulta do levantamento.
Faseada, a obra demora mais do que se a clínica fechasse. É uma troca consciente: mais semanas de obra em troca de não perder faturação nem doentes.
Pó, ruído e horários
Controlar o pó
Numa clínica, o pó de obra não é só sujidade: transporta partículas para superfícies que têm de estar desinfetadas e pode afetar equipamentos. A abordagem é a de controlo de infeção, não a de “limpar no fim”.
- Barreiras do pavimento ao teto, em plástico resistente ou painéis, com porta de fecho de correr e juntas seladas com fita. Se houver teto falso, a barreira continua acima dele, até à laje.
- Pressão negativa na zona de obra: uma unidade de extração com filtro HEPA tira ar da zona fechada, para que, quando a porta abre, o ar entre na obra e não saia para a clínica.
- Tapetes adesivos à saída da zona de obra e proteção do pavimento no percurso.
- Ferramentas com aspiração no corte e na furação, e corte de materiais fora da clínica sempre que possível.
- Limpeza diária da zona de obra e do percurso, com aspirador com filtro HEPA, antes da hora de abertura.
- Grelhas de ventilação da zona de obra tapadas, para que o sistema de climatização não distribua pó pela clínica.
Ruído e horários
A ideia de fazer tudo à noite e ao fim de semana esbarra na lei. O Regulamento Geral do Ruído (Decreto-Lei n.º 9/2007) só permite obras ruidosas no interior de edifícios de habitação, comércio ou serviços em dias úteis, entre as 8h e as 20h, com aviso afixado indicando a duração prevista. Uma clínica num prédio de habitação está precisamente nesta situação.
Na prática, organizamos o trabalho em dois tipos:
- Ruidoso — demolições, roços, furação em betão, corte de cerâmico: em dias úteis, em blocos curtos combinados com a agenda (por exemplo, primeira hora da manhã ou horas de menos marcações), nunca ao lado de um gabinete em consulta.
- Silencioso — pinturas, montagem de mobiliário, aplicação de pavimentos vinílicos, limpezas, ensaios: pode ir para o fim do dia ou para o sábado, sem incomodar doentes nem vizinhos.
Proteger o equipamento
Cadeiras dentárias, equipamentos de raio-X, autoclaves, compressores e servidores representam muitas vezes mais valor do que a própria obra. A regra é: quem não instalou, não mexe.
- Equipamentos na zona de obra são desligados e, se for preciso deslocá-los, desmontados pelo técnico do fornecedor.
- O que fica no lugar é coberto com proteção fechada e selada, não apenas um plástico por cima.
- Nos gabinetes a funcionar, os equipamentos não partilham circuitos com máquinas de obra.
- Se a obra mexe em paredes de uma sala de raio-X, envolva o especialista em proteção radiológica antes de demolir: a blindagem existente e a licença do equipamento dependem dessas paredes.
Numa clínica, a obra não acaba quando sai o último operário. Acaba quando a primeira consulta decorre sem pó, sem cheiro e sem ruído.
Instalações especiais
É aqui que uma clínica dentária mais se distingue de um escritório. A coordenação entre a obra, o projetista e os fornecedores de equipamento clínico decide se tudo liga à primeira.
- Ar comprimido e aspiração. Redes próprias até cada cadeira, com compressor e motor de aspiração num compartimento técnico ventilado e afastado dos gabinetes. São fontes de ruído e de calor, e a regulamentação da clínica pede documentação dos ensaios de ruído destes sistemas.
- Água para equipamentos. Pontos de água e esgoto por cadeira e para o esterilizador, com a qualidade de água que cada fabricante exige. A rede deve ser pensada para não deixar troços com água parada, por causa do risco de Legionella.
- Esgotos e separador de amálgama. O Regulamento (UE) 2017/852, relativo ao mercúrio, exige que as instalações dentárias que removem restaurações em amálgama tenham separador de amálgama, com retenção de pelo menos 95% das partículas. Mesmo com o uso de amálgama hoje fortemente restringido, a remoção de restaurações antigas continua.
- Gases medicinais. Quando existe rede de gases medicinais, a instalação e a certificação seguem regras próprias e entram na documentação da unidade.
- Eletricidade. Circuitos dedicados para cadeiras, compressor, aspiração, esterilização e raio-X. A portaria dos consultórios dentários pede uma tomada por cada equipamento de uso simultâneo, mais uma para limpeza. Servidor, central telefónica e sistema de imagem digital ficam numa UPS, para que um corte não apague dados nem interrompa um exame.
Superfícies, acústica e acessibilidade
Superfícies
Os acabamentos têm de permitir a higienização compatível com a atividade de cada espaço. Na prática:
- Pavimento vinílico homogéneo com juntas soldadas e rodapé sanitário em meia-cana, sem o ângulo de 90° onde a sujidade se acumula.
- Paredes com tintas ou revestimentos laváveis, resistentes aos desinfetantes usados pela clínica.
- Bancadas com o mínimo de juntas, cubas integradas e remates selados.
- Tetos falsos fechados e laváveis nas zonas clínicas, com alçapões de visita bem vedados.
Acústica e privacidade
A regulamentação exige condições que garantam a privacidade dos utentes. Isso faz-se com divisórias com isolamento acústico que vão até à laje (não só até ao teto falso), portas com vedação e cuidado com condutas que ligam gabinetes. O ruído do compressor e da aspiração também conta.
Acessibilidade
A clínica deve ter um percurso acessível até aos espaços fundamentais, nos termos do regime das acessibilidades (Decreto-Lei n.º 163/2006, na redação atual): entrada sem degraus ou com rampa, larguras de portas e de circulação, instalação sanitária acessível. Uma remodelação é a melhor altura para corrigir o que não cumpre.
Licenciamento na ERS
A abertura, a modificação e o funcionamento das unidades de saúde estão sujeitos ao Decreto-Lei n.º 127/2014, na redação atual, com processo no Portal de Licenciamento da Entidade Reguladora da Saúde. Para clínicas e consultórios dentários, os requisitos técnicos mínimos estão na Portaria n.º 99/2024/1, de 13 de março, entretanto alterada — incluindo os anexos com as áreas e os equipamentos de cada compartimento.
Três consequências práticas para a obra:
- Confirme antes de começar se as alterações de compartimentação, áreas ou instalações exigem atualizar a licença. É mais fácil ajustar o projeto do que a obra feita.
- Exija telas finais. A clínica tem de manter em arquivo as telas finais dos projetos de arquitetura, eletricidade, instalações mecânicas, águas e esgotos e, quando exista, gases medicinais. O empreiteiro deve entregá-las no fim da obra.
- Aproveite a obra para a adaptação. A portaria deu às unidades já licenciadas um prazo de cinco anos para se adaptarem aos novos requisitos técnicos. Se vai remodelar, desenhe já para os requisitos atuais.
Acima de tudo, o licenciamento é da responsabilidade da entidade que explora a clínica. A obra tem de lhe entregar o que precisa para o fazer sem surpresas.
Perguntas frequentes
É mesmo possível remodelar uma clínica sem fechar?
Na maior parte dos casos, sim, com faseamento por zonas, barreiras contra pó e trabalhos ruidosos planeados. Ainda assim, convém prever um a três dias de paragem total para ligações às redes gerais e para a limpeza final.
Podemos fazer a obra toda ao fim de semana?
Não a parte ruidosa. O Regulamento Geral do Ruído só permite obras ruidosas no interior de edifícios de habitação, comércio ou serviços em dias úteis, entre as 8h e as 20h. Fins de semana e noites servem para trabalhos silenciosos, como pinturas, montagens e limpezas.
Tenho de informar a ERS da remodelação?
O regime do Decreto-Lei n.º 127/2014 abrange a abertura, a modificação e o funcionamento das unidades de saúde. Se a obra altera compartimentos, áreas ou instalações técnicas, confirme antes de começar se a licença precisa de ser atualizada no Portal de Licenciamento da ERS.
Quanto tempo demora remodelar uma clínica dentária?
Depende da área e do número de gabinetes. Uma clínica pequena, remodelada por fases com a atividade a decorrer, leva tipicamente oito a catorze semanas, contra cinco a oito semanas se fechasse por completo.
Este artigo é informativo e não substitui aconselhamento técnico ou jurídico, nem a consulta da legislação em vigor e da ERS para o seu caso.


